Um texto que nos fala um pouco do benefício do toque terapêutico como um todo, extraído da revista Planeta. espero que gostem:
“ Tocar pode significar dar vida”, dizia o mestre renascentista
Michelangelo Buonarroti. Na célebre pintura do artista italiano, no teto
da Capela Cistina, no Vaticano, A Criação de Adão, Deus insufla vida ao
primeiro homem tocando seu dedo indicador. Para os cientistas,
entretanto, o toque nunca havia despertado muito interesse. Um tapinha
nas costas ou uma carícia no braço são, em geral, colocados na relação
de gestos incidentais como franzir a testa ou apoiar o queixo na mão. Na
verdade, não são.
Estudos recentes demonstram que o toque é muito mais importante do
que se imagina. Ele é fundamental, por exemplo, na comunicação humana,
no estreitamento de relações e na saúde. “(O toque) é a primeira
linguagem que aprendemos e nosso mais rico meio de expressão emocional
através da vida”, diz o norte-americano Dacher Keltner, professor de
psicologia da Universidade da Califórnia, Berkeley, um dos mais
renomados pesquisadores da área.
O antigo menosprezo em relação ao toque provavelmente tem raízes no
modo como cada cultura o vê. Os primatas passam entre 10% e 20% de seu
tempo de vigília afagando a pele ou os pelos de outros membros de sua
comunidade, porque o exercício é um meio importante para construírem
relacionamentos de cooperação. Entre os parentes humanos, porém, esses
índices são bem mais variáveis. Norte-americanos e ingleses, por
exemplo, quase não se tocam, enquanto povos de origem latina, como
brasileiros e italianos, tocam-se muito.
Nos anos 1960, o psicólogo canadense Sidney Jourard já salientava
essas diferenças ao estudar conversas entre amigos de várias partes do
mundo.

Animais lambidos e acariciados pelas mães, na infância, se mostram
mais calmos e resilientes diante de fatores de estresse na fase adulta,
além de exibirem um sistema imunológico mais forte
Os ingleses que ele observou, por exemplo, não se tocaram nenhuma
vez; os norte-americanos, duas. Já os franceses tocaram um ao outro 110
vezes por hora e os porto-riquenhos, 180 vezes por hora. Em inglês, a
recorrente expressão “don’t touch me” (não me toque) é considerada um
indicador do caráter reservado dos anglo-saxônicos.
Não tocar o outro ou tocá-lo pouco não impede, é claro, as sociedades
de atingirem um estágio adiantado de desenvolvimento, como a inglesa e a
norte-americana são exemplos. Mas a ciência moderna mostra que o toque é
muito benéfico – algo observável já no início da vida. Segundo um
estudo da médica norte-americana Tiffany Field, diretora do Instituto de
Pesquisas do Toque da Universidade de Miami, bebês prematuros que
receberam três sessões diárias de 15 minutos de massagem terapêutica (o
processo pelo qual vários tipos de toques e carícias são aplicados no
corpo para melhorar a saúde e aumentar o bemestar), por um período de
cinco a dez dias, ganharam 47% de peso a mais do que aqueles cujo
tratamento seguiu o roteiro tradicional.
Toque divino: detalhe de A Criação de Adão, pintura de Michelangelo no teto da Capela Sistina, no Vaticano, em Roma.
Uma pesquisa com ratos, feita pela psicóloga norte-americana Darlene
Francis e pelo psiquiatra canadense Michael Meaney, revela que os
animais muito lambidos e acariciados pelas mães, na infância, se mostram
mais calmos e resilientes diante de fatores de estresse na fase adulta,
além de exibirem um sistema imunológico mais forte.
Segundo Keltner, é bem possível que esteja aí a explicação de por que
os bebês humanos deixados em orfanatos e privados de contato físico não
atingem as medidas esperadas de altura e peso e apresentam problemas
comportamentais ao longo da vida. “Contato físico insuficiente durante o
crescimento pode estar relacionado ao risco de depressão em idade
adulta”, reforça o neurocientista inglês Francis McGlone.
O poder calmante do toque foi documentado num estudo com mulheres
conduzido pelos neurocientistas norteamericanos James Coan, Richard
Davidson e Hillary Schaefer, da Universidade da Virgínia. As
participantes foram colocadas num aparelho de ressonância magnética
funcional e, avisadas de que ouviriam uma explosão seguida de “ruído
branco” (tipo de barulho produzido pela combinação simultânea de sons de
todas as frequências), apresentaram uma atividade intensa nas áreas do
cérebro relacionadas a ameaça e estresse. Nada disso aconteceu,
entretanto, com as participantes cuja mão era segurada por seu parceiro.
O toque parece ter desativado a reação de medo nessas voluntárias.
As massagens feitas entre os membros de um casal podem render ainda
mais dividendos, segundo estudos de Tif fany Field. Além da redução da
dor, as vantagens incluem o alívio da depressão e o fortalecimento dos
laços afetivos.
Uma pesquisa da Universidade da Califórnia, Berkeley, conduzida pelo
nor te-americano Matt Her tenstein (hoje professor de psicologia na
DePauw University) e com a participação de Keltner, investigou se os
humanos podiam comunicar claramente emoções, como a compaixão, por meio
do toque. Os pesquisadores montaram no laboratório uma divisória que
separava dois voluntários, um desconhecido do outro. Enquanto um deles
punha seu braço num espaço específico aberto na divisória, e aguardava, a
pessoa do outro lado recebia uma lista de emoções, que devia transmitir
uma a uma por meio de um toque de um segundo no antebraço do parceiro.
Segundo Keltner, dado o número de emoções em exame, as probabilidades
de adivinhar a alternativa certa pelo acaso eram de cerca de 8%. “Mas,
notavelmente, os participantes adivinharam a compaixão corretamente,
cerca de 60% do tempo”, disse. Gratidão, raiva, amor e medo também
tiveram índices de acerto acima dos 50%. Percebeu-se ainda que as
pessoas não apenas identificam a gratidão, a compaixão e o amor
transmitidos pelo toque como podem também diferenciar os tipos de toque
usados com essa finalidade.
“Costumávamos pensar que o toque servia apenas para intensificar as
emoções comunicadas”, afirmou Hertenstein. “Agora, nós o vemos como um
sistema de sinalização muito mais diferenciado do que havíamos
imaginado.” Esse e outros estudos levaram Keltner a concluir que o toque
é uma linguagem primordial da compaixão e uma ferramenta básica para
disseminá-la.
Toques solidários com as mãos, abraços e peitadas são frequentes entre os campeões de basquete do Los Angeles Lakers.
Responsabilidade partilhada
Quando relaxadas, as áreas pré-frontais do cérebro tornamse liberadas
para executar uma de suas funções primárias: a resolução de problemas.
Segundo o psicólogo norte-americano James Coan, da Universidade da
Virgínia, o toque que sugere apoio leva o cérebro a trabalhar nesse
sentido, por ser entendido pelo corpo como a informação de que alguém
está ali para ajudar. “Pensamos que os humanos constroem relacionamentos
precisamente por essa razão, distribuir a resolução de problemas pelos
cérebros”, afirmou Coan ao jornal The New York Times. “Estamos
conectados para literalmente partilhar a carga de processamento. Esse é o
sinal que obtemos quando recebemos apoio por meio do toque.”
O toque tem um potencial, na saúde, que vai muito além do simples
relaxamento. Só recentemente se começou a dedicar mais atenção a essa
área. Já se sabe que um toque carinhoso básico acalma o estresse
cardiovascular e ativa o nervo vago, diretamente ligado à resposta
compassiva da pessoa. Tocar pacientes com a doença de Alzheimer lhes dá
grandes benefícios em termos de relaxamento, redução da depressão e
estabelecimento de conexões emocionais com outras pessoas.
De acordo com Tiffany, a massagem terapêutica reduz o cortisol,
hormônio ligado ao estresse, e aumenta a produção de dois
neurotransmissores, a dopamina (que estimula a atividade do sistema
nervoso central) e a serotonina (responsável, entre outras funções, pela
liberação de diversos hormônios e associada ao estado de felicidade).
No Instituto de Pesquisas do Toque, Tiffany tem feito diversas
experiências de massagem terapêutica em pacientes com os mais variados
problemas de saúde. “Não há uma única condição que tenhamos observado –
incluindo o câncer – que não tenha respondido positivamente à massagem”,
afirma. Nos estudos ela constatou que a massagem terapêutica alivia
problemas autoimunes (amplia a função pulmonar em casos de asma e reduz
os níveis de glicose na diabete) e aumenta a função imune (por exemplo,
eleva o número de células de defesa em pessoas com HIV ou com câncer).
Ela descobriu ainda que crianças autistas (as quais, segundo se
acreditava, detestam ser tocadas) adoram ser massageadas pelos pais ou
por um terapeuta.
O toque também ajuda a deixar as pessoas mais alertas e melhora seu
desempenho. Um estudo da Universidade da Califórnia, Berkeley, publicado
em 2010 na revista Emotion, avaliou se há uma relação entre as vitórias
dos times da National Basketball Association (NBA, a liga
norte-americana de basquete) e os toques entre jogadores.
Os pesquisadores descobriram que dois dos times de melhor rendimento –
o Boston Celtics e o Los Angeles Lakers – eram os líderes em toques
entre jogadores (foram considerados toques o bater de mãos espalmadas,
os abraços e as peitadas). Já as duas equipes nas quais os jogadores
menos se tocavam, o Sacramento Kings e o Charlotte Bobcats, tiveram
desempenho medíocre.
A educação é outra área que pode se beneficiar do toque. Em um estudo
do psicólogo francês Nicolas Gueguen, abordado em artigo publicado na
revista Journal of Social Psychology, estudantes tocados no antebraço
pelo professor evoluíram em termos de comportamento e produtividade, na
comparação com os colegas não tocados. Gueguen verificou ainda que,
quando os professores dão tapinhas amigáveis em alunos, estes ficam três
vezes mais propensos a participar ativamente da aula.
Para Dacher Keltner, as pesquisas confirmam que existe uma conexão
com um nível físico básico que deve ser exercitada. A princípio, ela não
tem contraindicações e sua crescente lista de vantagens é cada vez mais
lastreada em dados científicos, sem subjetivismos psicológicos. Quando
alguém afirma a Tiffany Field que a massagem que ela e sua equipe
aplicam é bemsucedida porque “faz a pessoa se sentir bem”, a médica não
deixa por menos: “Ora! A massagem funciona porque muda toda a sua
fisiologia.”
“Não há uma única condição de saúde que tenhamos observado –
incluindo o câncer – que não tenha respondido positivamente à massagem”,
afirma a médica Tiffany Field, da Universidade de Miami.
A rota orgânica do toque
O neurocientista inglês Francis McGlone, da área de pesquisa e
desenvolvimento da multinacional Unilever, e uma equipe da Universidade
de Gotemburgo (Suécia) descobriram, em 2008, uma fibra nervosa, a
fibra-C, que responde pela sensação de prazer originária de um toque
agradável. Uma vez ativada, essa fibra leva a sensação ao córtex
órbito-frontal (a área do cérebro que regula as emoções e está
relacionada aos sistemas de recompensa e compaixão), o que causa a
liberação de hormônios ligados ao bem-estar.
Entre eles está a oxitocina, o “hormônio do amor”, que, além de
influenciar no estabelecimento e na manutenção de relacionamentos,
estimula a confiança e reduz os níveis do cortisol, o hormônio do
estresse.
McGlone ressalta que as fibras-C não têm relação com o prazer
experimentado ao se friccionar órgãos sexuais, nem com as palmas das
mãos ou as solas dos pés. Segundo o neurocientista, a fórmula perfeita
para um toque carinhoso é fazê-lo numa extensão entre quatro e cinco
centímetros de comprimento por segundo, aplicando dois gramas de pressão
por centímetro quadrado.
McGlone salienta ainda que as mensagens de prazer originárias do
toque seguem da pele para o cérebro por fibras nervosas similares às que
enviam a sensação de dor – o que explicaria, por exemplo, por que um
estímulo de dor é aliviado quando a região em que surge é imediatamente
massageada ou acariciada.
Texto: eduardoaraia@planetanaweb.com.br